"O texto que se segue é da autoria de Félix Monteiro, que foi convidado pela AJOC a passar para o papel a palestra que ele (Félix Monteiro) proferiu aquando da comemoração dos 50 anos da publicação da revista CLARIDADE. Félix Monteiro retrata de forma sintética os cerca de 150 anos da História da Imprensa em Cabo Verde, que começou com a publicação do Boletim Oficial em 1842. Se o internauta preferir, no entanto, conhecer de forma mais exaustiva a História da Imprensa durante o período da colonização portuguesa, pode sempre consultar o livro de João Nobre de Oliveira - " A Imprensa Cabo-verdiana 1820 - 1975", Edição: Fundação Macau, Setembro 1998".
O ponto de partida, para a contagem dos cento e cinquenta anos da Imprensa em Cabo Verde, foi a publicação do Boletim Oficial, cujo primeiro número saiu no dia 24 de Agosto de 1842, por sinal na Ilha da Boa Vista, onde então funcionava a sede do governo. Naqueles tempos os governadores fugiam da Praia todos os anos na época das chuvas por causa do paludismo, levando consigo o pessoal necessário para todo o expediente burocrático. Esta a razão por que, tendo chegado a Cabo verde, na época das chuvas, o primeiro impressor, trazendo consigo o material necessário para o seu trabalho, iniciou as suas funções na referida ilha. Para quem nunca tenha tido a oportunidade de consultar, ou mesmo folhar os Boletins Oficiais dessa época, poderá parecer estranho que se fale dessa publicação como ponto de referência da Imprensa, melhor dizendo, do jornalismo em Cabo verde. É que o Boletim, além dos assuntos oficiais, publicava a chamada PARTE NÃO OFICIAL, que funcionava como um autêntico jornal, visto que incluía não só o noticiário resumido de diversas publicações nacionais e estrangeiras, como também produções literárias de autores cabo-verdianos ou residentes em Cabo Verde. Para estimular os leitores da PARTE NÃO OFICIAL do Boletim, que passou a contar com vários colaboradores, o seu preço foi reduzido de 40 para 20 reis cada exemplar avulso, ao mesmo tempo que as mulheres eram convidadas a frequentar as suas páginas, nas quais encontrariam – palavras textuais – “trechos de história, de instrução, ou de recreio moral”. Foi por certo em atenção as suas leitoras que a referida secção inseriu na íntegra as resoluções do Congresso da Mulheres, realizado pouco antes no Estado de Ohio, quando as mulheres americanas, revoltadas contra as discriminações a que estavam sujeitas, declararam solenemente que queriam “os mesmos direitos, leis e protecção para ambos os sexos”. Diga-se de passagem que a injustiça era tal que as mulheres nem sequer podiam matricular-se nas universidades. A primeira mulher que frequentou uma universidade americana teve de falsificar documentos e usar trajes masculinos, fazendo-se passar por homem, aos olhos dos colegas, professores e mais pessoal. De uma notícia depois publicada na mesma secção se vê que também era vedado o ingresso de mulheres nas Escolas Superiores da Grã-Bretanha. Compreende-se assim que tais notícias e outras, reproduzidas de diversos jornais e revistas, suscitassem o mais vivo interesse, da parte dos leitores, que igualmente se procuravam inteirar-se da situação política, nacional e internacional, através dos periódicos que passaram a ser recebidos regularmente em Cabo Verde, destacando-se as colecções facultadas aos sócios dos gabinetes de leitura que entretanto se foram criando em quase todas as ilhas do arquipélago. Assim é que o número de jornais entrados através dos correios em pouco tempo atingiu a casa dos vinte mil por ano. Por volta de 1860, quando o escritor português Tomas Valdez passou pela Ilha de Santiago em viagem de estudo, ele teve a oportunidade de visitar um desses gabinetes de leitura onde – diz ele – “os habitantes e os viajantes podem passar algumas horas agradáveis quer em jogos lícitos quer na leitura de jornais políticos e literários”. Um desses gabinetes de leitura foi aberto na Praia em 1853, com estatuto devidamente aprovado, seguindo-se-lhe vários outros, em quase todas as Ilhas. Paralelamente aos gabinetes de leitura funcionavam grupos musicais e teatrais de bom nível, todos devidamente organizados. E é interessante notar-se que, da actividade dos grupos teatrais resultou a construção do Teatro D. Maria Pia, na cidade da Praia, iniciada em 21 de Março de 1863 com o produto de contribuições em dinheiro e em materiais de construção. O lançamento da primeira pedra, de que se encarregou o Governador, revestiu-se de certa solenidade, colocando-se debaixo da mesma uma cópia do auto respectivo e uma moeda com a efígie do rei D. Luís I. Antes, do acabamento da obra, porém, a mesma teve de ser aproveitada para armazenar géneros alimentícios para fazer face à situação provocada pela estiagem. Em 1871 já funcionava em pleno, mas com o nome de Teatro Africano, por sinal com camarotes e frisas reservados por assinatura, a qual no entanto não se considerava válida no caso de se tratar de espectáculos de grande Gala, como aconteceu na noite de 16 de Outubro, data do aniversário da rainha. Para melhor se avaliar o interesse pela cultura nessa época vale a pena lembrar ainda que, em 8 de Abril do mesmo ano, foi aberta a biblioteca nacional, provisoriamente instalada numa sala do resto do chão do Quartel-general, isto é, na própria residência do Governador, que procedeu ao acto, estando presentes, além de outras individualidades, inevitavelmente, a respectiva comissão directora e o conservador. A Comissão era constituída por três intelectuais – Doutor João Cesário de Lacerda, Alfredo Troni e Francisco Frederico Hopffer – como também o era o bibliotecário Guilherme Dantas. Ora bem: ao contrário do que poderá parecer a primeira vista, não estou saindo do assunto porque, na verdade, foi todo esse conjunto de circunstâncias que levou alguns cidadãos praienses que já era tempo de publicar em Cabo Vede um jornal, para informação e defesa dos interesses cabo-verdianos, aliás, a semelhança do que acontecia nalgumas terras de segunda ordem de Portugal e mesmo na madeira e principalmente nos açores, onde se publicavam jornais por bem dizer desde os primeiros tempos das lutas liberais, que Cabo Verde acompanhou com entusiasmo, como o prova o facto de o escritor cabo-verdiano João José António Frederico, perseguido como liberal, ter de fugir para a América do Norte em 13 de Dezembro de 1831, a bordo da escuna “Seline & Jane”, quando estava sendo procurado para ser preso. Num dos seus apontamentos sobre a frequência da biblioteca, Guilherme Dantas escreveu o seguinte: “de todas as possessões portuguesas, uma certa classe, é Cabo verde a única que ainda não possui uma publicação literária e periódica… o Boletim – acrescentou pelo exíguo do seu formato pela sua mesma índole, não comporta nem longos e sucessivos artigos, nem dissertações sobre todas as matérias nem artigos de recreio para o público, tais como romances, folhetins, etc. ora, tudo isto se podia reunir numa publicaçãozinha mensal. Em Novembro de 1871 o advogado madeirense Hipólito Olímpico da Costa Andrade, funcionário público e proprietário em Santiago em artigo publicado na Parte Não Oficial do Boletim, também estranhava ver “esta província sem empresa política que a inunde de sua luz civilizadora”. Mas ele queria um jornalismo que “ sabe fugir ao domínio do espírito parcial das facções políticas, e não troca a sua majestosa independência pela degradante posição de instrumento de desonestidade e ambições, de vinganças miseráveis, de desordem e desgraça dos povos”. “ E também - acrescentou - que não queima à porta dos grandes das nações do incenso, cujo perfume suave se perde turíbulo da adulação, sustentando em mãos de indignos”. Talvez não seja descabido lembrar, para melhor se compreender a advertência de Costa Andrade, que o jornalismo em Portugal andava sempre envolvido, apaixonadamente, nas pugnas políticas, umas vezes com notável equilíbrio, dignidade e bom nível literário, como no caso da brilhante actividade jornalística dos escritores Garrett, Herculano, Castilho e, mais tarde, Eça, Antero e Ramalho, por exemplo, outras vezes com uma linguagem grosseira, provocada pela intolerância e pelo ódio votado aos adversários políticos, muitos dos quais vítimas da ataques pessoais sempre virolentos. Um dos mais afamados panfletários revelados no calor das lutas liberais foi o frade José Agostinho de Macedo, jornalista de talento mas implacável, assanhado e rancoroso, como transparece o próprio título dos jornais que fundou e dirigiu. A Tripa Virada, A Besta Esfolada, e O Cacete, o último dos quais terá levado o escritor cabo-verdiano Pedro Monteiro Cardoso a fazer ressuscitar esse título através do jornal O Manduco, que fundou na Ilha do Fogo em 1922. É curioso que uma das vítimas do Cacete de José Agostinho de Macedo, o escritor Pato Moniz, por volta de 1830 foi deportado justamente para a Ilha do Fogo, onde viveu, conviveu e foi tão útil à comunidade que a Câmara Municipal deliberou dar o seu nome ao largo no qual construiu casa e residiu até o fim da vida. A casa é a que depois veio a pertencer ao padre Miguel António Monteiro e o largo de Pato Moniz é mais conhecido por Achada Pato, nome possivelmente dado pelo povo muito antes da deliberação camarária. Outro famigerado gladiador do jornalismo português foi Rodrigues Sampaio, também considerado dos maiores profissionais do seu tempo e que não posso deixar de citar, aliás. Muito a propósito, como vamos ver a seguir. Do primeiro número do seu jornal, o Espectro, que começou a ser publicado em 16 de Dezembro de 1846, constam as seguintes palavras de apresentação, denunciadoras de um programa de acção: “O Espectro é a sombra das vítimas que acompanhará sempre os seus assassínios e opressores – é a umbra mortis, esse fantasma que não deixa o rico no seu palácio nem o pobre na sua cabana – é o inocente a clamar vingança contra o seu prosseguidor”. Com o mesmo formato e o mesmo arranjo tipográfico viria a ser publicado um jornal nesta cidade do Mindelo, com o mesmo título, O Espectro, “dedicado à causa dos fracos contra os fortes, dos pequenos contra os grandes, dos oprimidos contra os opressores”. A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO é outro jornal de Sampaio, igualmente célebre pela violência com que defendia intransigentemente os direitos constitucionais. Nele colaborou o médico cabo-verdiano Francisco Frederico Hopffer, com artigos sobre a administração colonial. Fica portanto justificado o motivo porque vieram à baila O CACETE, O ESPECTRO e a REVOLUÇÃO DE SETEMBRO.Com esta ligeira introdução, que se me afigura necessária e indispensável, já podemos entrar mais directamente no assunto da minha palestra – jornais cabo-verdianos. Por uma questão de método, e sem contar com preliminar ensaiada na PARTE NÃO OFICIAL do Boletim, podemos dividir em fases distintas a actividade jornalística desenvolvida em Cabo verde. A primeira começou com a publicação do jornal INDEPENDENTE em 1 de Outubro de 1877 e se prolongou até 1890, quando foi promulgado o Decreto de 29 de Março, estabelecendo restrições à imprensa periódica, a segunda vai até 1905; a terceira foi espoletada pela proclamação da república e terminou com a ditadura do Estado Novo; derrubada a ditadura em 25 de Abril de 1974 e conquistada a independência nacional, recuperou-se o entusiasmo dos primeiros tempos, passando o amadorismo a ser substituído em parte pelo profissionalismo. Lamentavelmente, não ficaram quaisquer vestígios dos primeiros jornais que se publicaram em Cabo verde. Na Biblioteca Nacional de Lisboa só consegui consultar o primeiro número do jornal A JUSTIÇA e os números 54 e 55 do semanário A IMPRENSA. Dos Subsídios de Brito Aranha e de outros investigadores sobre o jornalismo no Ultramar, citado por José Júlio Gonçalves no seu Livro A INFORMAÇÃO NA GUINÉ EM CABO VERDE E EM S. TOMÉ, se vê que foram os seguintes os jornais publicados em Cabo verde nos anos de 1877 a 1889, todos na cidade da Praia: 1ª Fase:
1 - INDEPENDENTE – semanário noticioso, literário e político, começou a ser publicado em 19 de Abril de 1879;2 - CORREIO DE CABO VERDE – jornal político e noticioso, publicado a partir de Abril de 1880;3 - ECHO DE CABO VERDE – jornal político e noticioso, publicado a partir de Abril de 1880;4 - A IMPRENSA – semanário político e noticioso, posto a circular em 1 de Outubro de 1880;5 - A JUSTIÇA – iniciou a sua publicação em 17 de Abril de 1881, prometendo defender a causa do povo;6 - O protesto – quinzenário político, iniciado em 4 de Fevereiro de 1883;7 - O POVO PRAIENSE – número único, especial, destinado a comemorara a chegada em 13 de Julho de 1886, do governador João Cesário de Lacerda, médico naval e dramaturgo conhecido e muito estimado em Cabo verde, onde exercera as funções de secretário-geral na década anterior;8 - O PRAIENSE – terá aparecido no segundo semestre de 1889;9 - PRAIA – foi o último jornal da primeira fase e deve ter saído pouco depois de O PRAIENSE, mas ainda em 1889,À excepção do que documenta a pequena amostra existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, bem pouco ou nada se conhece sobre a maior parte dos jornais citados. Do jornal INDEPENDENTE sabe-se no entanto, através de João Augusto Martins no seu livro MASDEIRA, CABO VERDE E GUINÉ, que nele colaboraram Joaquim Maria Augusto Barreto e Guilherme Dantas, e que este “fulminou com violência tantos preconceitos, tantos ridículos e tantas ostentações” enquanto que se revelou um valente manejador da sátira” e ainda “polemista de talento”, como viria a confirmar o poeta José Lopes na revista A VIDA COLONIAL. O jornal A JUSTIÇA que, no seu primeiro número, revelou “invencível repugnância de se envolver em questiúnculas”, no entanto publicou nesse mesmo número uma que o autor dedica ao proprietário e redactor do jornal, Luís Frederico de Banque é um verdadeiro anátema contra os deficientes físicos, que diz serem marcados pela natureza, entre os quais sita os surdos, sem dúvida na intenção de atingir Guilherme Dantas, que os teria molestado com a sua ironia causticante. À semelhança do que acontecia em Portugal, é bem possível que um ou outro desses jornalistas também cultivasse tal género de combate, com ataques furiosos, remoques azedos e toda uma série de questiúnculas, nem sempre de lana caprina. E daí talvez a sua vida efémera. Outros colaboradores dignos de menção. Nesta primeira fase, seriam, além de António de Paula Brito e Hipólito Olímpico de Costa Andrade, na sua qualidade de directores e redactores, Francisco Frederico Hopffer, Sérvulo Medina Vasconcelos, Luís Medina, José Rodrigues Moniz, António Pedro Silves Ferreira, Gaudêncio da Silva Gonçalves, alguns dos quais com colaboração n Almanaque de Lembrança luso-brasileiro. 2ª Fase:
Na segunda fase, iniciada em Janeiro de 1899, saíram 4 jornais, todos na cidade do Mindelo, enquanto que na Praia se publicou um número único, especial, do Jornal CABO VERDE, destinado a assinalar a passagem do príncipe real D. Luiz Filipe por Cabo verde, em 1907. De registar, igualmente, a publicação do Almanach Luso-Africano, nos anos de 1898 e 1902, bem como o seu suplemento literário – a revista Esperança. O seu fundador e director foi o cónego António Manuel da Costa Teixeira, que os preparou em São Nicolau sendo impressos em Braga. Os quatros jornais publicados em Mindelo na segunda fase foram os seguintes:1 – REVISTA DE CABOVERDE – de Janeiro a Dezembro de 1899, a princípio mensalmente e, a partir de Abril, quinzenalmente, visto que passou a sair um suplemento nos intervalos. Foi seu director e proprietário Luiz Loff de Vasconcelos e era imprensa em Lisboa;2 – LIBERDADE – quinzenário, começou a ser publicado em 1 de Março de 1902, sendo seu director Aurélio Martins;3 – A OPINIÃO – quinzenário, iniciou a sua publicação em 1 de Novembro de 1902, soba direcção de Luiz Loff de Vasconcelos;4 – O ESPECTRO –publicado por Gaspar Matos, metropolitano, a partir de 7 de Fevereiro de 1904, quando já havia uma tipografia em S. Vicente.A REVISTA DE CABO VERDE foi acolhida com muita simpatia pelos leitores, muitos dos quais, verbalmente ou por escrito, revelaram ao seu director o que pensavam sobre o programa que deveria ser seguido para melhor servir os interesses da grei cabo-verdiana. Dando conta dos comentários de que teve conhecimento, o jornal identificou os seguintes rumos preferidos: alguns leitores entendiam que, acima de tudo se devia pleitear pela indecência de Cabo verde, enquanto outros se pronunciavam a favor da adjacência das ilhas ou, então por uma autonomia honrosa. Parece que nessa altura já estava fermentando a ideia da autonomia visto que, em 1900, esteve para ser publicado no Mindelo o jornal O AUTONOMISTA, como se vê do jornal A ALVORADA que Eugénio Tavares publicou em Agosto de 1900, na cidade americana de New Bedford. Aliás, não foi por acaso que Eugénio escolheu o tema “autonomia”, para desenvolver no primeiro número de ALVORADA, um artigo que rematou com as seguintes palavras proféticas: “Havemos de ter nosso Monroe: a África para os africanos.” Isto em Agosto de 1900. Eugénio foi o mais assíduo colaborador da REVISTA DE CABO VERDE e terá sido, apesar de tudo co-responsável pelo seu afundamento, ao fim de um ano de publicação, devido à reacção dos leitores a quem desagradavam, entre outros, os artigos defendendo a ideia da mudança da capital da Cabo Verde para a cidade do Mindelo, aliás decretada em 1838, sob proposta do então ministro Sá da Bandeira. Outro destacado colaborador foi o poeta José Lopes que, no n.º 14 da REVISTA DE CABO VERDE protestou contra determinadas leis de excepção, aproveitando manifestar “anseios de que algum dia, embora no derradeiro momento da vida, pudesse ver estas ilhas independentes e felizes”. O jornal LIBERDADE, apesar do prestígio do título e das intenções com que iniciou a publicação, não chegou a gozar de muita simpatia, talvez porque o seu director não fosse pessoa benquista no meio, pelas razões que constam de um panfleto mandado imprimir em Lisboa aquando do afundamento do palhabote BOA VISTA no canal do Porto-Grande, abalroado estupidamente por um barco inglês, cujos armadores lhe confiaram a sua defesa, na qualidade de advogado. De qualquer maneira, merece ser lembrado o desassombro com que fez sair o suplemento ao n.º 7 do seu jornal, tarjado de negro, em sinal de luto pelo regresso de um governador indesejável. Igualmente corajosa foi a publicação d uma carta de Manuel Romano de Melo denunciando a situação da fome na Ilha de Santo Antão e pedindo providencias urgentes, “sem termos de recorrer a nações estrangeiras”, solução depois encarada no n.º 23 de 5 de Abril de 1903, quando a intenção” de dirigir uma representação ao presidente dos Estados Unidos da América do Norte pedindo-lhe auxílio, à semelhança do que fizera a Martinica”. De recordar ainda que, reagindo contra certas medidas discriminatórias e contra “ o desprezo votado aos filhos do Ultramar”, Manuel Dias da Cunha Ribeiro, que depois passou a usar o pseudónimo Aguinaldo, de intenção revolucionária que já era tempo de pegarmos em armas para conquistar a nossa independência”. O jornal OPINIÃO foi saudado com grande entusiasmo, confessando-se o seu director “agradavelmente surpreendido no dia da saída do primeiro número, por uma manifestação de mais de quinhentos populares, tendo à frente a filarmónica da terra, soltando aqueles repetidos e entusiásticos vivas à OPINIÃO, à imprensa e à liberdade”. Agradecendo o director disse: Nós estamos com o povo e folgamos de ver que o povo está connosco.” Logo no seu primeiro número o jornal chamou a atenção do Governo para a situação da fome nas ilha, sem deixar de frisar que “não queremos levar o povo à rebelião”. Outros assuntos tratados nos primeiros números foram: o proletariado, os morgadios de ilha de Santiago, a imprensa amordaçada, etc. o último jornal da segunda fase foi O ESPECTRO, afinado pelo diapasão de Rodrigues Sampaio, como disse atrás. Como O ESPECTRO de Sampaio, o seu homónimo cabo-verdiano pretendeu ser a sombra das vítimas da fome de 1903, a favor das quais – diga-se de passagem – a rainha patrocinara a realização de um espectáculo em Lisboa, no qual vários poetas se prontificaram a declamar poemas inéditos, invocando alguns deles os deveres de solidariedade humana face aos horrores da miséria. Foi uma lição dada ao engenheiro Carvalho da Silva que, para solução do caso de Cabo Verde, preconizava cinicamente a eliminação dos fracos e a sua substituição pelos fortes. “Para isso – disse ele numa entrevista ao jornal português O DIÁRIO, de 15 de junho de 1903 – morra o preto ou faça-se emigrar, para dar lugar a colonos brancos”. Ele acabou por ser expulso de Cabo Verde, como indesejável, logo após a proclamação da República. Num dos seus suplementos, publicados em plena campanha eleitoral, O ESPECTRO apoia o médico cabo-verdiano Dr. José Augusto Ferro, como candidato a deputado por Cabo Verde em oposição ao candidato metropolitano da preferência do Governo. E o articulista termina garantindo que, se se perguntasse ao povo “qual a sua disposição, ele vos responderá una você “Abaixo o Governo! Viva Cabo Verde livre!” 3ª Fase:A terceira fase, que começou logo após a proclamação da República e terminou com a ditadura do Estado Novo, foi um período conturbado, mas sem dúvida fecundo, durante o qual foram publicado uns vinte jornais, sem falar das folhas manuscritas, da iniciativa de jovens estudantes, do Seminário-Liceu de São Nicolau e do Colégio Municipal de São Vicente. Na ilha de São Nicolau, os alunos internos do Seminário publicavam O RECREIO, inevitavelmente conservador, enquanto que os alunos externos publicavam a FÉNIX RENASCIDA, de cariz político, nos anos de 1811 a 1913; na Ilha de São Vicente os finalistas do Colégio Municipal publicavam O MINDELENSE. Encorajados pelos aplausos dos seus leitores, entre os quais Eugénio Tavares, os alunos do Colégio deliberaram saltar para a arena, mais a sério, com O MINDELENSE, impresso a partir do seu segundo número. A euforia provocada pela mudança de regime político era tal que, no ano de 1913, circulavam simultaneamente A VOZ DE CABO VERDE, O INDEPENDENTE, O FUTURO DE CABO VERDE, O PROGRESSO, A TRIBUNA e O MINDELENSE, isto é, quatro jornais na Praia, um no Mindelo e um na Brava. O primeiro jornal publicado depois da implantação da república, foi o semanário A VOZ DE CABO VERDE, posto a circular na Praia em 1 de Março de 1911 e que, desde de logo, advogou a causa da liberdade de imprensa, encarecendo a necessidade de se tornar extensivo ao Ultramar o decreto de 28 de Outubro de 1910. Através das suas páginas se vê que não eram poucas as discórdias que separavam os jornais, cada um na sua trincheira. A presença do primeiro governador da República, Marinha de Campos, violento e impetuoso, terá contribuído para acirrar os ânimos, como se pode ver de um folheto da autoria do cónego Duarte da Graça, com o título de QUATRO MESES E MEIO DE UMA ADMINISTRAÇÃO ULTRAMARINA A PONTAPÉS. Além do mais, o seu anticlericalismo, compartilhado pelo jornal A VOZ, cujo proprietário era maçon, não podia deixar de desagradar. O curioso é que, apesar de A VOZ apoiar o governador, entre outras razões, por pertencer ao partido político chefiado por Afonso Costa, sendo portanto correligionário do seu proprietário e de alguns colaboradores, o jornal não deixou de noticiar alguns factos denunciadores da alegria de uns tantos, quando o viram pelas costas, exonerado por conveniência da administração. O segundo governador, Júdice Biker, não pertencia ao partido de Afonso Costa, motivo porque foi recebido com certo cepticismo e por fim hostilizado pelo jornal A VOZ, principalmente quando ele apadrinhou o lançamento do jornal O FUTURO DE CABO VERDE, com o qual A VOZ viria a estar permanentemente em polémicas, por vezes de baixo nível. Outros jornais que se distinguiram nesta época foram: O POPULAR E CABO VERDE, publicados no Mindelo nos anos de 1914 e 1920, respectivamente; O CABOVERDEANO, A ACÇÃO, A SEIVA, e A VERDADE, publicados na Praia, de 1918 a 1922, A DESPESA, publicado em 1913 e O MANDUCO, publicado no Fogo a partir de 1923. Entre os colaboradores mais dotados distinguiram-se nesses jornais: Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Cardoso, Augusto Miranda, Mário Ferro, Carlos de Vasconcelos, António Corsino Lopes da Silva, César de Sá Nogueira, José Calazans, Ramos Mota, José dos Reis Borges, João José Bernardo Alfama, Luís de Sousa, Raul Ribeiro. Bem, eu apenas prometi repetir, mais ou menos ipsis verbis, o que disse sobre o jornalismo em Cabo verde no Simpósio comemorativo do cinquentenário da publicação da revista CLARIDADE, pelo que não vou avançar mais pormenores, tanto mais que de momento, não disponho de material para estudar o assunto e, por outro lado, a minha memória, já muito infiel devido à idade, não me permite recordar tudo quanto se passou em Cabo Verde nos domínios do jornalismo durante o período dominado pela censura imposta pelo regime salazarista. Citarei, no entanto, o NOTÍCIAS DE CABO VERDE, fundado em 1931 por Manuel Ribeiro de Almeida, sendo Augusto Manuel Miranda o seu redactor principal, O ECO DE CABO VERDE, o RESSURGIMENTO e, refugiados no campo das letras e artes, as revistas CLARIDADE E CERTEZA, sem esquecer SELÓ, suplemento literário de NOTÍCIAS. Refugiados porque era intenção, pelo menos, do grupo claridoso, lançar um jornal no Mindelo, para denunciar a situação difícil que o povo estava atravessando principalmente aos trabalhadores cuja manutenção dependia do movimento do Porto-Grande, então quase paralisado, como também pugnar pelo progresso e bem-estar da população das ilhas. As exigências burocráticas foram porém tais e tantas, sobretudo no que se refere à caução então exigida pela lei, intencionalmente muito levada para desencorajar iniciativas do género, que o grupo teve que se refugiar na revista CLARIDADE. Para se fazer uma ideia do rigorismo da censura nesta época, bastará lembrar que não foi autorizada a publicação do número 3 da revista CERTEZA, e que o conto A CADERNETA, de Baltazar Lopes, também foi censurado, motivo por que foi publicada na revista VÉRTICE, parecendo que a censura em Coimbra era menos rigorosa ou, então, não terá sido decifrada a intenção do autor, que era criticar determinados aspectos da administração e também da situação económica que empurrava para a prostituição. O mesmo autor já tinha driblado a censura na LENGA DAS ROSAS, publicada na NOTÍCIAS DE CABO VERDE na qual criticava mais ou menos indirectamente o rigorismo e as arbitrariedades de então reitor do Liceu de São Vicente.
4ª Fase:
No período que se segue a queda da ditadura e a subsequente independência de cabo verde, também podemos distinguir duas fases distintas na evolução do jornalismo cabo-verdiano. Durante a primeira, mais ou menos dominada pelo partido único, distinguiu-se o jornal TERRA NOVA, pela coragem e frontalidade de alguns dos seus colaboradores, enquanto que, no campo das letras e artes, marcaram presença significativa as revistas RAÍZES e PONTO & VÍRGULA. A abertura política conquistada nas urnas, nas últimas eleições, reflecte-se no número e na qualidade dos jornais que se publicam actualmente, como também na rádio e na televisão, merecendo destacar-se a preocupação de se formarem profissionais em escolas de jornalismo.
"Como pôde Conferir, o texto de Félix Monteiro vai até ao jornal Terra Nova. Por não haver ainda nenhuma publicação actual sobre a História Geral dos Meios de Comunicação Social cabo-verdianos, esta página fica um pouco incompleta. De qualquer forma, posso acrescentar que depois dessa época apareceram outros jornais privados que hoje se podem encontrar nas bancas, como por exemplo "A Semana" e "Expresso da Ilhas". O Estado assegura o jornal Horizonte que antes se chamava Voz di Povo, e que neste momento perdeu muito da sua eficácia devido ao impasse em que se encontra, se vai ou não ser privatizado. É também da tutela do Estado a agencia de notícias Inforpress. A televisão pública surgiu em 1984. No início funcionou como TVEC (Televisão Experimental de Cabo Verde), depois passou, numa evolução normal, a chamar-se TNCV (Televisão Nacional de Cabo verde), mais tarde com a fusão com a rádio passou a haver uma única empresa de radio-televisão a RTC (Rádio e Televisão de Cabo verde), e actualmente continuam como uma única empresa mas distinguindo-se como TCV (Televisão de Cabo verde) e RCV (Rádio de Cabo verde). Portanto, a rádio nacional teve uma evolução semelhante a televisão. No início chamou-se RNCV (Rádio Nacional de Cabo Verde), com a fusão passou a RTC, distinguindo-se actualmente como RCV. O panorama dos media em Cabo Verde conheceu uma nova dinâmica com o surgimento, principalmente, de rádios privados. Esta dinâmica deve-se, não só ao aumento de estações de rádio, mas devido a uma nova forma de fazer rádio que vem revolucionando o meio radiofónico em Cabo Verde. A interactividade, a dinâmica e o espírito jovem são factores que caracterizam essas rádios que já conquistaram a maior parte da audiência. A par disso, a informação jornalística passou a ser maior e mais acessível com as versões on-line de jornais impresso. Neste ambiente da Internet, e no sentido de informação a um nível mais abrangente (institucional), Cabo Verde é um dos países dos PALOP que mais evoluiu. A maior parte das instituições públicas e privadas dispõe de uma página on-line. A ideia de sociedade de informação difundiu na sociedade de tal forma que tornou-se quase um defeito se uma empresa ou instituição não tiver uma versão on-line.
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O ponto de partida, para a contagem dos cento e cinquenta anos da Imprensa em Cabo Verde, foi a publicação do Boletim Oficial, cujo primeiro número saiu no dia 24 de Agosto de 1842, por sinal na Ilha da Boa Vista, onde então funcionava a sede do governo. Naqueles tempos os governadores fugiam da Praia todos os anos na época das chuvas por causa do paludismo, levando consigo o pessoal necessário para todo o expediente burocrático. Esta a razão por que, tendo chegado a Cabo verde, na época das chuvas, o primeiro impressor, trazendo consigo o material necessário para o seu trabalho, iniciou as suas funções na referida ilha. Para quem nunca tenha tido a oportunidade de consultar, ou mesmo folhar os Boletins Oficiais dessa época, poderá parecer estranho que se fale dessa publicação como ponto de referência da Imprensa, melhor dizendo, do jornalismo em Cabo verde. É que o Boletim, além dos assuntos oficiais, publicava a chamada PARTE NÃO OFICIAL, que funcionava como um autêntico jornal, visto que incluía não só o noticiário resumido de diversas publicações nacionais e estrangeiras, como também produções literárias de autores cabo-verdianos ou residentes em Cabo Verde. Para estimular os leitores da PARTE NÃO OFICIAL do Boletim, que passou a contar com vários colaboradores, o seu preço foi reduzido de 40 para 20 reis cada exemplar avulso, ao mesmo tempo que as mulheres eram convidadas a frequentar as suas páginas, nas quais encontrariam – palavras textuais – “trechos de história, de instrução, ou de recreio moral”. Foi por certo em atenção as suas leitoras que a referida secção inseriu na íntegra as resoluções do Congresso da Mulheres, realizado pouco antes no Estado de Ohio, quando as mulheres americanas, revoltadas contra as discriminações a que estavam sujeitas, declararam solenemente que queriam “os mesmos direitos, leis e protecção para ambos os sexos”. Diga-se de passagem que a injustiça era tal que as mulheres nem sequer podiam matricular-se nas universidades. A primeira mulher que frequentou uma universidade americana teve de falsificar documentos e usar trajes masculinos, fazendo-se passar por homem, aos olhos dos colegas, professores e mais pessoal. De uma notícia depois publicada na mesma secção se vê que também era vedado o ingresso de mulheres nas Escolas Superiores da Grã-Bretanha. Compreende-se assim que tais notícias e outras, reproduzidas de diversos jornais e revistas, suscitassem o mais vivo interesse, da parte dos leitores, que igualmente se procuravam inteirar-se da situação política, nacional e internacional, através dos periódicos que passaram a ser recebidos regularmente em Cabo Verde, destacando-se as colecções facultadas aos sócios dos gabinetes de leitura que entretanto se foram criando em quase todas as ilhas do arquipélago. Assim é que o número de jornais entrados através dos correios em pouco tempo atingiu a casa dos vinte mil por ano. Por volta de 1860, quando o escritor português Tomas Valdez passou pela Ilha de Santiago em viagem de estudo, ele teve a oportunidade de visitar um desses gabinetes de leitura onde – diz ele – “os habitantes e os viajantes podem passar algumas horas agradáveis quer em jogos lícitos quer na leitura de jornais políticos e literários”. Um desses gabinetes de leitura foi aberto na Praia em 1853, com estatuto devidamente aprovado, seguindo-se-lhe vários outros, em quase todas as Ilhas. Paralelamente aos gabinetes de leitura funcionavam grupos musicais e teatrais de bom nível, todos devidamente organizados. E é interessante notar-se que, da actividade dos grupos teatrais resultou a construção do Teatro D. Maria Pia, na cidade da Praia, iniciada em 21 de Março de 1863 com o produto de contribuições em dinheiro e em materiais de construção. O lançamento da primeira pedra, de que se encarregou o Governador, revestiu-se de certa solenidade, colocando-se debaixo da mesma uma cópia do auto respectivo e uma moeda com a efígie do rei D. Luís I. Antes, do acabamento da obra, porém, a mesma teve de ser aproveitada para armazenar géneros alimentícios para fazer face à situação provocada pela estiagem. Em 1871 já funcionava em pleno, mas com o nome de Teatro Africano, por sinal com camarotes e frisas reservados por assinatura, a qual no entanto não se considerava válida no caso de se tratar de espectáculos de grande Gala, como aconteceu na noite de 16 de Outubro, data do aniversário da rainha. Para melhor se avaliar o interesse pela cultura nessa época vale a pena lembrar ainda que, em 8 de Abril do mesmo ano, foi aberta a biblioteca nacional, provisoriamente instalada numa sala do resto do chão do Quartel-general, isto é, na própria residência do Governador, que procedeu ao acto, estando presentes, além de outras individualidades, inevitavelmente, a respectiva comissão directora e o conservador. A Comissão era constituída por três intelectuais – Doutor João Cesário de Lacerda, Alfredo Troni e Francisco Frederico Hopffer – como também o era o bibliotecário Guilherme Dantas. Ora bem: ao contrário do que poderá parecer a primeira vista, não estou saindo do assunto porque, na verdade, foi todo esse conjunto de circunstâncias que levou alguns cidadãos praienses que já era tempo de publicar em Cabo Vede um jornal, para informação e defesa dos interesses cabo-verdianos, aliás, a semelhança do que acontecia nalgumas terras de segunda ordem de Portugal e mesmo na madeira e principalmente nos açores, onde se publicavam jornais por bem dizer desde os primeiros tempos das lutas liberais, que Cabo Verde acompanhou com entusiasmo, como o prova o facto de o escritor cabo-verdiano João José António Frederico, perseguido como liberal, ter de fugir para a América do Norte em 13 de Dezembro de 1831, a bordo da escuna “Seline & Jane”, quando estava sendo procurado para ser preso. Num dos seus apontamentos sobre a frequência da biblioteca, Guilherme Dantas escreveu o seguinte: “de todas as possessões portuguesas, uma certa classe, é Cabo verde a única que ainda não possui uma publicação literária e periódica… o Boletim – acrescentou pelo exíguo do seu formato pela sua mesma índole, não comporta nem longos e sucessivos artigos, nem dissertações sobre todas as matérias nem artigos de recreio para o público, tais como romances, folhetins, etc. ora, tudo isto se podia reunir numa publicaçãozinha mensal. Em Novembro de 1871 o advogado madeirense Hipólito Olímpico da Costa Andrade, funcionário público e proprietário em Santiago em artigo publicado na Parte Não Oficial do Boletim, também estranhava ver “esta província sem empresa política que a inunde de sua luz civilizadora”. Mas ele queria um jornalismo que “ sabe fugir ao domínio do espírito parcial das facções políticas, e não troca a sua majestosa independência pela degradante posição de instrumento de desonestidade e ambições, de vinganças miseráveis, de desordem e desgraça dos povos”. “ E também - acrescentou - que não queima à porta dos grandes das nações do incenso, cujo perfume suave se perde turíbulo da adulação, sustentando em mãos de indignos”. Talvez não seja descabido lembrar, para melhor se compreender a advertência de Costa Andrade, que o jornalismo em Portugal andava sempre envolvido, apaixonadamente, nas pugnas políticas, umas vezes com notável equilíbrio, dignidade e bom nível literário, como no caso da brilhante actividade jornalística dos escritores Garrett, Herculano, Castilho e, mais tarde, Eça, Antero e Ramalho, por exemplo, outras vezes com uma linguagem grosseira, provocada pela intolerância e pelo ódio votado aos adversários políticos, muitos dos quais vítimas da ataques pessoais sempre virolentos. Um dos mais afamados panfletários revelados no calor das lutas liberais foi o frade José Agostinho de Macedo, jornalista de talento mas implacável, assanhado e rancoroso, como transparece o próprio título dos jornais que fundou e dirigiu. A Tripa Virada, A Besta Esfolada, e O Cacete, o último dos quais terá levado o escritor cabo-verdiano Pedro Monteiro Cardoso a fazer ressuscitar esse título através do jornal O Manduco, que fundou na Ilha do Fogo em 1922. É curioso que uma das vítimas do Cacete de José Agostinho de Macedo, o escritor Pato Moniz, por volta de 1830 foi deportado justamente para a Ilha do Fogo, onde viveu, conviveu e foi tão útil à comunidade que a Câmara Municipal deliberou dar o seu nome ao largo no qual construiu casa e residiu até o fim da vida. A casa é a que depois veio a pertencer ao padre Miguel António Monteiro e o largo de Pato Moniz é mais conhecido por Achada Pato, nome possivelmente dado pelo povo muito antes da deliberação camarária. Outro famigerado gladiador do jornalismo português foi Rodrigues Sampaio, também considerado dos maiores profissionais do seu tempo e que não posso deixar de citar, aliás. Muito a propósito, como vamos ver a seguir. Do primeiro número do seu jornal, o Espectro, que começou a ser publicado em 16 de Dezembro de 1846, constam as seguintes palavras de apresentação, denunciadoras de um programa de acção: “O Espectro é a sombra das vítimas que acompanhará sempre os seus assassínios e opressores – é a umbra mortis, esse fantasma que não deixa o rico no seu palácio nem o pobre na sua cabana – é o inocente a clamar vingança contra o seu prosseguidor”. Com o mesmo formato e o mesmo arranjo tipográfico viria a ser publicado um jornal nesta cidade do Mindelo, com o mesmo título, O Espectro, “dedicado à causa dos fracos contra os fortes, dos pequenos contra os grandes, dos oprimidos contra os opressores”. A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO é outro jornal de Sampaio, igualmente célebre pela violência com que defendia intransigentemente os direitos constitucionais. Nele colaborou o médico cabo-verdiano Francisco Frederico Hopffer, com artigos sobre a administração colonial. Fica portanto justificado o motivo porque vieram à baila O CACETE, O ESPECTRO e a REVOLUÇÃO DE SETEMBRO.Com esta ligeira introdução, que se me afigura necessária e indispensável, já podemos entrar mais directamente no assunto da minha palestra – jornais cabo-verdianos. Por uma questão de método, e sem contar com preliminar ensaiada na PARTE NÃO OFICIAL do Boletim, podemos dividir em fases distintas a actividade jornalística desenvolvida em Cabo verde. A primeira começou com a publicação do jornal INDEPENDENTE em 1 de Outubro de 1877 e se prolongou até 1890, quando foi promulgado o Decreto de 29 de Março, estabelecendo restrições à imprensa periódica, a segunda vai até 1905; a terceira foi espoletada pela proclamação da república e terminou com a ditadura do Estado Novo; derrubada a ditadura em 25 de Abril de 1974 e conquistada a independência nacional, recuperou-se o entusiasmo dos primeiros tempos, passando o amadorismo a ser substituído em parte pelo profissionalismo. Lamentavelmente, não ficaram quaisquer vestígios dos primeiros jornais que se publicaram em Cabo verde. Na Biblioteca Nacional de Lisboa só consegui consultar o primeiro número do jornal A JUSTIÇA e os números 54 e 55 do semanário A IMPRENSA. Dos Subsídios de Brito Aranha e de outros investigadores sobre o jornalismo no Ultramar, citado por José Júlio Gonçalves no seu Livro A INFORMAÇÃO NA GUINÉ EM CABO VERDE E EM S. TOMÉ, se vê que foram os seguintes os jornais publicados em Cabo verde nos anos de 1877 a 1889, todos na cidade da Praia: 1ª Fase:
1 - INDEPENDENTE – semanário noticioso, literário e político, começou a ser publicado em 19 de Abril de 1879;2 - CORREIO DE CABO VERDE – jornal político e noticioso, publicado a partir de Abril de 1880;3 - ECHO DE CABO VERDE – jornal político e noticioso, publicado a partir de Abril de 1880;4 - A IMPRENSA – semanário político e noticioso, posto a circular em 1 de Outubro de 1880;5 - A JUSTIÇA – iniciou a sua publicação em 17 de Abril de 1881, prometendo defender a causa do povo;6 - O protesto – quinzenário político, iniciado em 4 de Fevereiro de 1883;7 - O POVO PRAIENSE – número único, especial, destinado a comemorara a chegada em 13 de Julho de 1886, do governador João Cesário de Lacerda, médico naval e dramaturgo conhecido e muito estimado em Cabo verde, onde exercera as funções de secretário-geral na década anterior;8 - O PRAIENSE – terá aparecido no segundo semestre de 1889;9 - PRAIA – foi o último jornal da primeira fase e deve ter saído pouco depois de O PRAIENSE, mas ainda em 1889,À excepção do que documenta a pequena amostra existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, bem pouco ou nada se conhece sobre a maior parte dos jornais citados. Do jornal INDEPENDENTE sabe-se no entanto, através de João Augusto Martins no seu livro MASDEIRA, CABO VERDE E GUINÉ, que nele colaboraram Joaquim Maria Augusto Barreto e Guilherme Dantas, e que este “fulminou com violência tantos preconceitos, tantos ridículos e tantas ostentações” enquanto que se revelou um valente manejador da sátira” e ainda “polemista de talento”, como viria a confirmar o poeta José Lopes na revista A VIDA COLONIAL. O jornal A JUSTIÇA que, no seu primeiro número, revelou “invencível repugnância de se envolver em questiúnculas”, no entanto publicou nesse mesmo número uma que o autor dedica ao proprietário e redactor do jornal, Luís Frederico de Banque é um verdadeiro anátema contra os deficientes físicos, que diz serem marcados pela natureza, entre os quais sita os surdos, sem dúvida na intenção de atingir Guilherme Dantas, que os teria molestado com a sua ironia causticante. À semelhança do que acontecia em Portugal, é bem possível que um ou outro desses jornalistas também cultivasse tal género de combate, com ataques furiosos, remoques azedos e toda uma série de questiúnculas, nem sempre de lana caprina. E daí talvez a sua vida efémera. Outros colaboradores dignos de menção. Nesta primeira fase, seriam, além de António de Paula Brito e Hipólito Olímpico de Costa Andrade, na sua qualidade de directores e redactores, Francisco Frederico Hopffer, Sérvulo Medina Vasconcelos, Luís Medina, José Rodrigues Moniz, António Pedro Silves Ferreira, Gaudêncio da Silva Gonçalves, alguns dos quais com colaboração n Almanaque de Lembrança luso-brasileiro. 2ª Fase:
Na segunda fase, iniciada em Janeiro de 1899, saíram 4 jornais, todos na cidade do Mindelo, enquanto que na Praia se publicou um número único, especial, do Jornal CABO VERDE, destinado a assinalar a passagem do príncipe real D. Luiz Filipe por Cabo verde, em 1907. De registar, igualmente, a publicação do Almanach Luso-Africano, nos anos de 1898 e 1902, bem como o seu suplemento literário – a revista Esperança. O seu fundador e director foi o cónego António Manuel da Costa Teixeira, que os preparou em São Nicolau sendo impressos em Braga. Os quatros jornais publicados em Mindelo na segunda fase foram os seguintes:1 – REVISTA DE CABOVERDE – de Janeiro a Dezembro de 1899, a princípio mensalmente e, a partir de Abril, quinzenalmente, visto que passou a sair um suplemento nos intervalos. Foi seu director e proprietário Luiz Loff de Vasconcelos e era imprensa em Lisboa;2 – LIBERDADE – quinzenário, começou a ser publicado em 1 de Março de 1902, sendo seu director Aurélio Martins;3 – A OPINIÃO – quinzenário, iniciou a sua publicação em 1 de Novembro de 1902, soba direcção de Luiz Loff de Vasconcelos;4 – O ESPECTRO –publicado por Gaspar Matos, metropolitano, a partir de 7 de Fevereiro de 1904, quando já havia uma tipografia em S. Vicente.A REVISTA DE CABO VERDE foi acolhida com muita simpatia pelos leitores, muitos dos quais, verbalmente ou por escrito, revelaram ao seu director o que pensavam sobre o programa que deveria ser seguido para melhor servir os interesses da grei cabo-verdiana. Dando conta dos comentários de que teve conhecimento, o jornal identificou os seguintes rumos preferidos: alguns leitores entendiam que, acima de tudo se devia pleitear pela indecência de Cabo verde, enquanto outros se pronunciavam a favor da adjacência das ilhas ou, então por uma autonomia honrosa. Parece que nessa altura já estava fermentando a ideia da autonomia visto que, em 1900, esteve para ser publicado no Mindelo o jornal O AUTONOMISTA, como se vê do jornal A ALVORADA que Eugénio Tavares publicou em Agosto de 1900, na cidade americana de New Bedford. Aliás, não foi por acaso que Eugénio escolheu o tema “autonomia”, para desenvolver no primeiro número de ALVORADA, um artigo que rematou com as seguintes palavras proféticas: “Havemos de ter nosso Monroe: a África para os africanos.” Isto em Agosto de 1900. Eugénio foi o mais assíduo colaborador da REVISTA DE CABO VERDE e terá sido, apesar de tudo co-responsável pelo seu afundamento, ao fim de um ano de publicação, devido à reacção dos leitores a quem desagradavam, entre outros, os artigos defendendo a ideia da mudança da capital da Cabo Verde para a cidade do Mindelo, aliás decretada em 1838, sob proposta do então ministro Sá da Bandeira. Outro destacado colaborador foi o poeta José Lopes que, no n.º 14 da REVISTA DE CABO VERDE protestou contra determinadas leis de excepção, aproveitando manifestar “anseios de que algum dia, embora no derradeiro momento da vida, pudesse ver estas ilhas independentes e felizes”. O jornal LIBERDADE, apesar do prestígio do título e das intenções com que iniciou a publicação, não chegou a gozar de muita simpatia, talvez porque o seu director não fosse pessoa benquista no meio, pelas razões que constam de um panfleto mandado imprimir em Lisboa aquando do afundamento do palhabote BOA VISTA no canal do Porto-Grande, abalroado estupidamente por um barco inglês, cujos armadores lhe confiaram a sua defesa, na qualidade de advogado. De qualquer maneira, merece ser lembrado o desassombro com que fez sair o suplemento ao n.º 7 do seu jornal, tarjado de negro, em sinal de luto pelo regresso de um governador indesejável. Igualmente corajosa foi a publicação d uma carta de Manuel Romano de Melo denunciando a situação da fome na Ilha de Santo Antão e pedindo providencias urgentes, “sem termos de recorrer a nações estrangeiras”, solução depois encarada no n.º 23 de 5 de Abril de 1903, quando a intenção” de dirigir uma representação ao presidente dos Estados Unidos da América do Norte pedindo-lhe auxílio, à semelhança do que fizera a Martinica”. De recordar ainda que, reagindo contra certas medidas discriminatórias e contra “ o desprezo votado aos filhos do Ultramar”, Manuel Dias da Cunha Ribeiro, que depois passou a usar o pseudónimo Aguinaldo, de intenção revolucionária que já era tempo de pegarmos em armas para conquistar a nossa independência”. O jornal OPINIÃO foi saudado com grande entusiasmo, confessando-se o seu director “agradavelmente surpreendido no dia da saída do primeiro número, por uma manifestação de mais de quinhentos populares, tendo à frente a filarmónica da terra, soltando aqueles repetidos e entusiásticos vivas à OPINIÃO, à imprensa e à liberdade”. Agradecendo o director disse: Nós estamos com o povo e folgamos de ver que o povo está connosco.” Logo no seu primeiro número o jornal chamou a atenção do Governo para a situação da fome nas ilha, sem deixar de frisar que “não queremos levar o povo à rebelião”. Outros assuntos tratados nos primeiros números foram: o proletariado, os morgadios de ilha de Santiago, a imprensa amordaçada, etc. o último jornal da segunda fase foi O ESPECTRO, afinado pelo diapasão de Rodrigues Sampaio, como disse atrás. Como O ESPECTRO de Sampaio, o seu homónimo cabo-verdiano pretendeu ser a sombra das vítimas da fome de 1903, a favor das quais – diga-se de passagem – a rainha patrocinara a realização de um espectáculo em Lisboa, no qual vários poetas se prontificaram a declamar poemas inéditos, invocando alguns deles os deveres de solidariedade humana face aos horrores da miséria. Foi uma lição dada ao engenheiro Carvalho da Silva que, para solução do caso de Cabo Verde, preconizava cinicamente a eliminação dos fracos e a sua substituição pelos fortes. “Para isso – disse ele numa entrevista ao jornal português O DIÁRIO, de 15 de junho de 1903 – morra o preto ou faça-se emigrar, para dar lugar a colonos brancos”. Ele acabou por ser expulso de Cabo Verde, como indesejável, logo após a proclamação da República. Num dos seus suplementos, publicados em plena campanha eleitoral, O ESPECTRO apoia o médico cabo-verdiano Dr. José Augusto Ferro, como candidato a deputado por Cabo Verde em oposição ao candidato metropolitano da preferência do Governo. E o articulista termina garantindo que, se se perguntasse ao povo “qual a sua disposição, ele vos responderá una você “Abaixo o Governo! Viva Cabo Verde livre!” 3ª Fase:A terceira fase, que começou logo após a proclamação da República e terminou com a ditadura do Estado Novo, foi um período conturbado, mas sem dúvida fecundo, durante o qual foram publicado uns vinte jornais, sem falar das folhas manuscritas, da iniciativa de jovens estudantes, do Seminário-Liceu de São Nicolau e do Colégio Municipal de São Vicente. Na ilha de São Nicolau, os alunos internos do Seminário publicavam O RECREIO, inevitavelmente conservador, enquanto que os alunos externos publicavam a FÉNIX RENASCIDA, de cariz político, nos anos de 1811 a 1913; na Ilha de São Vicente os finalistas do Colégio Municipal publicavam O MINDELENSE. Encorajados pelos aplausos dos seus leitores, entre os quais Eugénio Tavares, os alunos do Colégio deliberaram saltar para a arena, mais a sério, com O MINDELENSE, impresso a partir do seu segundo número. A euforia provocada pela mudança de regime político era tal que, no ano de 1913, circulavam simultaneamente A VOZ DE CABO VERDE, O INDEPENDENTE, O FUTURO DE CABO VERDE, O PROGRESSO, A TRIBUNA e O MINDELENSE, isto é, quatro jornais na Praia, um no Mindelo e um na Brava. O primeiro jornal publicado depois da implantação da república, foi o semanário A VOZ DE CABO VERDE, posto a circular na Praia em 1 de Março de 1911 e que, desde de logo, advogou a causa da liberdade de imprensa, encarecendo a necessidade de se tornar extensivo ao Ultramar o decreto de 28 de Outubro de 1910. Através das suas páginas se vê que não eram poucas as discórdias que separavam os jornais, cada um na sua trincheira. A presença do primeiro governador da República, Marinha de Campos, violento e impetuoso, terá contribuído para acirrar os ânimos, como se pode ver de um folheto da autoria do cónego Duarte da Graça, com o título de QUATRO MESES E MEIO DE UMA ADMINISTRAÇÃO ULTRAMARINA A PONTAPÉS. Além do mais, o seu anticlericalismo, compartilhado pelo jornal A VOZ, cujo proprietário era maçon, não podia deixar de desagradar. O curioso é que, apesar de A VOZ apoiar o governador, entre outras razões, por pertencer ao partido político chefiado por Afonso Costa, sendo portanto correligionário do seu proprietário e de alguns colaboradores, o jornal não deixou de noticiar alguns factos denunciadores da alegria de uns tantos, quando o viram pelas costas, exonerado por conveniência da administração. O segundo governador, Júdice Biker, não pertencia ao partido de Afonso Costa, motivo porque foi recebido com certo cepticismo e por fim hostilizado pelo jornal A VOZ, principalmente quando ele apadrinhou o lançamento do jornal O FUTURO DE CABO VERDE, com o qual A VOZ viria a estar permanentemente em polémicas, por vezes de baixo nível. Outros jornais que se distinguiram nesta época foram: O POPULAR E CABO VERDE, publicados no Mindelo nos anos de 1914 e 1920, respectivamente; O CABOVERDEANO, A ACÇÃO, A SEIVA, e A VERDADE, publicados na Praia, de 1918 a 1922, A DESPESA, publicado em 1913 e O MANDUCO, publicado no Fogo a partir de 1923. Entre os colaboradores mais dotados distinguiram-se nesses jornais: Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Cardoso, Augusto Miranda, Mário Ferro, Carlos de Vasconcelos, António Corsino Lopes da Silva, César de Sá Nogueira, José Calazans, Ramos Mota, José dos Reis Borges, João José Bernardo Alfama, Luís de Sousa, Raul Ribeiro. Bem, eu apenas prometi repetir, mais ou menos ipsis verbis, o que disse sobre o jornalismo em Cabo verde no Simpósio comemorativo do cinquentenário da publicação da revista CLARIDADE, pelo que não vou avançar mais pormenores, tanto mais que de momento, não disponho de material para estudar o assunto e, por outro lado, a minha memória, já muito infiel devido à idade, não me permite recordar tudo quanto se passou em Cabo Verde nos domínios do jornalismo durante o período dominado pela censura imposta pelo regime salazarista. Citarei, no entanto, o NOTÍCIAS DE CABO VERDE, fundado em 1931 por Manuel Ribeiro de Almeida, sendo Augusto Manuel Miranda o seu redactor principal, O ECO DE CABO VERDE, o RESSURGIMENTO e, refugiados no campo das letras e artes, as revistas CLARIDADE E CERTEZA, sem esquecer SELÓ, suplemento literário de NOTÍCIAS. Refugiados porque era intenção, pelo menos, do grupo claridoso, lançar um jornal no Mindelo, para denunciar a situação difícil que o povo estava atravessando principalmente aos trabalhadores cuja manutenção dependia do movimento do Porto-Grande, então quase paralisado, como também pugnar pelo progresso e bem-estar da população das ilhas. As exigências burocráticas foram porém tais e tantas, sobretudo no que se refere à caução então exigida pela lei, intencionalmente muito levada para desencorajar iniciativas do género, que o grupo teve que se refugiar na revista CLARIDADE. Para se fazer uma ideia do rigorismo da censura nesta época, bastará lembrar que não foi autorizada a publicação do número 3 da revista CERTEZA, e que o conto A CADERNETA, de Baltazar Lopes, também foi censurado, motivo por que foi publicada na revista VÉRTICE, parecendo que a censura em Coimbra era menos rigorosa ou, então, não terá sido decifrada a intenção do autor, que era criticar determinados aspectos da administração e também da situação económica que empurrava para a prostituição. O mesmo autor já tinha driblado a censura na LENGA DAS ROSAS, publicada na NOTÍCIAS DE CABO VERDE na qual criticava mais ou menos indirectamente o rigorismo e as arbitrariedades de então reitor do Liceu de São Vicente.
4ª Fase:
No período que se segue a queda da ditadura e a subsequente independência de cabo verde, também podemos distinguir duas fases distintas na evolução do jornalismo cabo-verdiano. Durante a primeira, mais ou menos dominada pelo partido único, distinguiu-se o jornal TERRA NOVA, pela coragem e frontalidade de alguns dos seus colaboradores, enquanto que, no campo das letras e artes, marcaram presença significativa as revistas RAÍZES e PONTO & VÍRGULA. A abertura política conquistada nas urnas, nas últimas eleições, reflecte-se no número e na qualidade dos jornais que se publicam actualmente, como também na rádio e na televisão, merecendo destacar-se a preocupação de se formarem profissionais em escolas de jornalismo.
"Como pôde Conferir, o texto de Félix Monteiro vai até ao jornal Terra Nova. Por não haver ainda nenhuma publicação actual sobre a História Geral dos Meios de Comunicação Social cabo-verdianos, esta página fica um pouco incompleta. De qualquer forma, posso acrescentar que depois dessa época apareceram outros jornais privados que hoje se podem encontrar nas bancas, como por exemplo "A Semana" e "Expresso da Ilhas". O Estado assegura o jornal Horizonte que antes se chamava Voz di Povo, e que neste momento perdeu muito da sua eficácia devido ao impasse em que se encontra, se vai ou não ser privatizado. É também da tutela do Estado a agencia de notícias Inforpress. A televisão pública surgiu em 1984. No início funcionou como TVEC (Televisão Experimental de Cabo Verde), depois passou, numa evolução normal, a chamar-se TNCV (Televisão Nacional de Cabo verde), mais tarde com a fusão com a rádio passou a haver uma única empresa de radio-televisão a RTC (Rádio e Televisão de Cabo verde), e actualmente continuam como uma única empresa mas distinguindo-se como TCV (Televisão de Cabo verde) e RCV (Rádio de Cabo verde). Portanto, a rádio nacional teve uma evolução semelhante a televisão. No início chamou-se RNCV (Rádio Nacional de Cabo Verde), com a fusão passou a RTC, distinguindo-se actualmente como RCV. O panorama dos media em Cabo Verde conheceu uma nova dinâmica com o surgimento, principalmente, de rádios privados. Esta dinâmica deve-se, não só ao aumento de estações de rádio, mas devido a uma nova forma de fazer rádio que vem revolucionando o meio radiofónico em Cabo Verde. A interactividade, a dinâmica e o espírito jovem são factores que caracterizam essas rádios que já conquistaram a maior parte da audiência. A par disso, a informação jornalística passou a ser maior e mais acessível com as versões on-line de jornais impresso. Neste ambiente da Internet, e no sentido de informação a um nível mais abrangente (institucional), Cabo Verde é um dos países dos PALOP que mais evoluiu. A maior parte das instituições públicas e privadas dispõe de uma página on-line. A ideia de sociedade de informação difundiu na sociedade de tal forma que tornou-se quase um defeito se uma empresa ou instituição não tiver uma versão on-line.












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